Filipe José Pereira; Felipe Eing; Francisco Azevedo Marquardt; Rodrigo Cavalheiro; Antonio Augusto Velasco e Cruz

Resumo

Objetivo: Demonstrar uma técnica inovadora de implante de peso de ouro via posterior e avaliar sua efetividade e possíveis complicações. Os resultados serão comparados com a literatura existente sobre a técnica via anterior, há muito tempo pouco modificada. 

Métodos: Foi realizado um estudo prospectivo (sequência de casos) com pacientes que apresentavam, há mais de 6 meses, lagoftalmo paralítico, independentemente da etiologia, atendidos no Departamento de Oculoplástica do Serviço de Oftalmologia do Hospital Governador Celso Ramos – SC, entre o período de fevereiro de 2006 a fevereiro de 2007, com indicação do implante de peso de ouro na pálpebra superior. A nova técnica via posterior foi realizada por apenas dois cirurgiões. 

Resultados: Treze pacientes com lagoftalmo paralítico, 9 homens e 4 mulheres com idade média de 53,07 anos (variando de 17 a 73), foram submetidos ao implante de peso de ouro pela técnica via posterior. O período de acompanhamento desses pacientes foi de 2 meses a 1 ano, com média de 6,30 meses. Em 3 pacientes, o peso implantado causou assimetria na distância margem-reflexo (DMR) na posição primária do olhar – ptose de 2 mm em 2 pacientes e 4 mm em 1 paciente. 

Conclusões: Embora tal técnica venha exibindo um resultado sistematicamente satisfatório, os autores acreditam que seja essencial o acompanhamento dos pacientes por um tempo maior a fim de comprovar a sustentabilidade de sua eficácia.

 

Introdução

A paralisia facial é uma doença de impacto por causar prejuízo funcional e estético. Dentre as causas de paralisia facial, as mais freqüentes são paralisia de Bell ou idiopática, tumores (neurinoma do nervo facial, neurinoma do nervo acústico, glômico, adenoma pleomórfico de parótida, carcinoma mucoepidermóide de parótida, melanoma temporal, sarcoma de articulação têmporo-mandibular, carcinoma de meato acústico externo, colesteatoma congênito, schwanoma), acidente vascular cerebral, pós-cirúrgico, infecção e trauma. Por sua vez, as manifestações clínicas mais comuns da paralisia facial periférica são lagoftalmo, diminuição da frequência do piscar, ectrópio de pálpebra inferior com falha do mecanismo de bomba lacrimal, ptose do supercílio e queda (“sagging”) do tecido periorbitário. Quanto ao lagoftalmo paralítico, ele consiste no fechamento palpebral incompleto originado pela perda da função do músculo orbicular, alterando a distribuição do filme lacrimal sobre a superfície ocular – o que poderá acarretar desde uma simples irritação até seqüelas visuais por perfuração de úlcera corneana. O tratamento inicial do lagoftalmo paralítico é clínico, realizado através de medicamentos lubrificantes, lentes de contato terapêuticas, câmara úmida e fechamento dos pontos lacrimais por meio de colocação de plugues, proporcionando conforto e proteção da córnea contra trauma e ressecamento. Nos casos em que o tratamento conservador não fornece proteção corneana suficiente, é indicado o tratamento cirúrgico com o objetivo de restituir a dinâmica palpebral, através da aplicação das seguintes técnicas: cauterização ou oclusão cirúrgica de pontos lacrimais, blefarorrafia, tarsorrafia, cantoplastia, desinserção da aponeurose do levantador da pálpebra superior e implante de peso de ouro em pálpebra superior, sendo este último o mais comumente utilizado. O implante do peso de ouro para a correção do lagoftalmo proporciona a oclusão palpebral pela ação da gravidade. O motivo da escolha do ouro nessa técnica cirúrgica decorre das suas características físico-químicas, como a alta densidade, maleabilidade, pouca reatividade, coloração adequada para camuflagem abaixo da pele fina da pálpebra superior e fácil comercialização. A popularidade desse tipo de implante aumentou gradativamente entre os cirurgiões oculoplásticos nos últimos 20 anos – o que resultou no surgimento de várias técnicas de implantação, como também em novas complicações. Há diversas técnicas cirúrgicas para implantação do peso de ouro, cuja seleção varia entre os pesos disponíveis comercialmente no Brasil: 0,8, 1,0, 1,2 e 1,4 gramas. A cirurgia é feita ou por fixação externa do peso com cola ou adesivo (escolha terapêutica), ou por implante cirúrgico através de incisão no sulco palpebral, seguida de divulsão do músculo orbicular e fixação do peso, seja em placa tarsal, seja sob a aponeurose do levantador da pálpebra superior, seja atrás do septo orbitário. Com o objetivo de diminuir as complicações pós-operatórias, alguns cirurgiões optam por recobrir o peso de ouro com fáscia temporal e pericárdio. As complicações atribuídas a esse procedimento cirúrgico incluem o lagoftalmo residual, a blefaroptose cobrindo o eixo visual, o entrópio, deformidades da pálpebra superior, protuberância do peso de ouro, reação inflamatória local, infecções, migração e extrusão do peso de ouro, sendo estes dois últimos os mais comuns e temíveis. Assim, com respeito ao lagoftalmo paralítico, o objetivo do presente estudo consiste em demonstrar uma técnica inovadora de implante de peso de ouro via posterior (ausente na literatura) e em avaliar sua efetividade e possíveis complicações. Os resultados serão comparados com a literatura existente sobre a técnica via anterior, há muito tempo pouco modificada.

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SBCPO

Filipe Pereira

Filipe Pereira

Secretário geral SBCPO - CRM-SC 7999

Mestrado e especialização em Plástica Ocular, Vias Lacrimais e Órbita pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP. Observational fellowship in ophthalmic plastic surgery – University of California of San Francisco. Diretor técnico da CCPO – Clínica Catarinense de Pálpebras e Olhos - Florianópolis. Secretário geral SBCPO